.a.caixa.colorida.
Ela tinha uma caixa. A caixa era dela. E lá dentro tantas alegrias. E lá dentro tantas tristezas. Segredos. Medos. Vergonhas. Sorrisos. Sonhos. Frustrações. Tempos bons e ruins. Cartões dos melhores e dos péssimos. Mas nada fora compartilhado até aquele momento. Estava tudo bem guardado, fechado e escondido dentro da caixa colorida.
Não que não houvesse o interesse em abri-la. Mais que isto. Havia a necessidade. Mas na mão de uma criança a chave acaba se perdendo. E foi assim que aconteceu. Dessa forma ninguém a havia encontrado. Não que não tivessem procurado a tal chave, mas acho que no fim ela não queria encontrá-la. E por isso, depois de um tempo, não pediu mais ajuda a ninguém.
A caixa colorida de fita larga e vermelha continuou lá. Fechada. De alguma forma ela conseguia colocar coisas dentro da caixa, mas sem a chave ela não conseguia abri-la para tirar ou rever essas e outras coisas. A caixa colorida estava fechada com o laço, mas só uma chave poderia destrancá-la. Sim, tudo muito confuso. Porque, de certa forma, ela também era assim. Sua caixa era como ela, ou ela era como sua caixa. Ninguém sabia mais ao certo, nem ela mesma.
E lá, perdida em algum lugar, ficou a caixa colorida. Ela sempre ia visitá-la para guardar alguma coisa. Mas nunca mais tentara abri-la até então. Na verdade, ela ficou anos sem se quer contar a alguém que guardava uma caixa colorida. Os novos amigos não sabiam da existência dela, e os velhos já achavam que a caixa colorida era só uma invenção fantasiosa.
Mas um dia, por mais bem elaborada que seja, a endrominante retórica não convence mais ninguém. Por isso ela se cansou de tentar convencer a si própria. Sem discursos para se apoiar, ela já tinha decidido que tudo acabaria de vez. E o que nem se quer começara encontraria seu fim. Foi quando ela se lembrou da caixa, era a única coisa que talvez a ajudasse a querer continuar vivendo ou lhe mostrasse até o que era viver. Então, ela quis desesperadamente abrir a caixa, a sua caixa colorida. Precisava disso mais que antes. Mas, e a chave?
Foi em uma grande odisséia que ela encontrou o Senhor do Tempo (que é o Eterno Pai do grande deus Niurion), o Cavaleiro do Escudo Vermelho, (que é aquele para quem tudo teve início e terá fim), e o Grande Poeta (que é o Escritor que o Senhor do Tempo enviou para confirmar seus decretos) e eles lhe revelaram como encontrar a chave. E isto já é uma história a parte. O importante agora é saber que a Donzela das Flores nos Pés, que é a Quarta Irmã da Borboleta Colorida, a ajudou a desfazer o laço vermelho. Foi aí que o caminho para encontrar a chave começou a se desvendar conforme já havia anunciado o Senhor do Tempo, o Cavaleiro do Escudo Vermelho e o Grande Poeta.
E foi assim, debaixo da sombra do assombroso Ipê Amarelo, que ela encontrou a Valente Sábia do Pastoreio, que é a filha da filha da Mulher do Coração de Ouro, que é uma das poucas que ainda ouve de Sofia tudo o que ela lhe conta sobre o Senhor do Tempo e seus decretos, e isto também já é uma história a parte. O importante é saber que foi ela que lhe entregou a chave perdida. Na verdade a Valente Sábia do Pastoreio nem se quer sabia que possuía a chave perdida até o momento que colocou a mão no coração para procurar. E encontrou. Ao entregar a chave para ela a Valente Sábia do Pastoreio ficou preocupada: a chave era muito pesada para a outra carregar. Mas era preciso abrir de uma vez a caixa colorida e esvaziá-la. Pois se a chave era pesada, a caixa era ainda mais.
Com a chave na mão ela se despediu da Valente Sábia do Pastoreio e prometeu lhe trazer dos seus próprios frutos para que esta pudesse saborear na outra primavera. Ela correu até o Refúgio dos Guerreiros da Profecia, onde morava a Donzela dos Pés das Flores e lhe mostrou a chave. Ela não falou palavra alguma. Mas isto não quer dizer que ela não tenha dito nada. Ela disse muito sem falar. Como o laço já havia sido desfeito a Donzela dos Pés das Flores a ajudou a abrir a caixa colorida por um tempo encaixando a chave na tranca, depois ela precisou girar a chave sozinha.
Com a chave ela abriu a caixa. Naquele momento ela viu quanta coisa havia ali. Umas eram lixo. Podridão. Cheiravam mal. Outras precisavam ser recicladas, reaproveitadas, refeitas. E algumas necessitavam ser usadas com urgência. Sem mais nenhuma espera ou exigência.
Eram coisas demais para serem organizadas. Muita confusão, muito conflito, muita informação. Era tudo muito velho e muito novo ao mesmo tempo. Doía demais e era ao mesmo tempo libertador. Abrir a caixa colorida não somente a poupou de um suicídio egoísta como a fez ter uma perspectiva boa do que era viver. Mesmo com tantas coisas para arrumar, tudo já estava sendo consertado de certa forma.
E agora, enquanto ela esvazia a caixa seu coração também é preenchido. O vazio é a possibilidade de coisas novas. O preenchimento é a certeza de que elas já estão chegando. Por isso o vazio da caixa e o conteúdo do coração têm o mesmo nome, e isto é o que ela passou a chamar de EsPeRanÇa.
(:|:)
.psicose.paranóica.induzida.
PARTE VI
(((em construção)))
.bons.modos.
Obrigado.
Com licença.
Por favor.
De nada.
Bom dia.
Dispõe.
Pois não?
Como queira.
Por obséquio.
Não há de que.
(:|:)
.eu.não.sei.
Augustus só queria se esquivar das obrigações de esclarecer a situação provocada por ele.
_Eu não sei.
Era tudo o que ele dizia para se explicar e se defender. Milena não se conformava com a atitude dele. Ninguém naquela situação iria aceitar, é claro, mas Milena tinha bons motivos para reminicar a todo instante.
Augustus e Milena iriam casar em 3 semanas e ele havia aceitado uma proposta de emprego que o obrigaria a se mudar para Espanha em 6 dias. A questão é que ele ainda queria casar com Milena e por isso ninguém entendia o motivo que o levara a aceitar o emprego sem nem falar com ela. Quando todos perguntavam a razão de tão descabida decisão ele respodia:
_Eu não sei.
E lá iam todos novamente discursar prolixamente nos ouvidos dele. Nisso Milena se retirava para um conta e se colocava a chorar inconformada. Entre um argumento e outro surgia uma e outra pergunta dirigida a ele:
_Por que você aceitou sem nem falar com Milena?
_Por que você não esperou a data do casamento?
_Por que não apresentou uma contra proposta?
_Por que você não recusa esse emprego?
_Por que não muda de idéia?
_Por que não se defente, não se explica? Por que não diz alguma coisa?
Não importava a pergunta. A resposta dele era sempre a mesma:
_Eu não sei, eu não sei!
Ninguém sabia explicar, nem Milena, nem o próprio Augustus. Se ele estava hipnotizado? Se estava bebâdo? Se estava agindo por ameaça? Se era só uma pegadinha para a noiva? Se tudo não passava de um mal entendido? Se no fundo ele não queria casar e estava dando seu jeito para acabar o noivado? Se ele estava sob efeito de remédios ou drogas? Se ele estava louco? Se ele era burro?
Bem… Aí, eu não sei!
(:|:)
.No.Reino.das.Alparcas.Sobressalentes.
((( em construção )))
.sim.ou.não.
_Sabe, já faz um tempo que eu tenho te notado.
_Como assim? Me notado?
_É. Te observado. Sabe… além da amizade.
_Ah.
_E tenho percebido tantas coisas. Eu… Eu acho que você é meu grande amor disfarçado de melhor amiga.
_Ah é? Uau.
_Andei pensando… E quem sabe você gostaria de ser minha namorada.
_Isso é um pedido de namoro?
_Errr… Você quer?
_ …
_Eu sei que te peguei desprevenida. Você nem esperava por isso, né?
_É.
_Sabe mas é simples: sim ou não.
_…
_E então? Você quer namorar comigo?
_…
_…
_Sim!
(:|:)
.eu.gostaria.
Pai, Mãe e Edu,
eu gostaria que tudo fosse bem rápido. Nada com muito exagero, pompas ou nostalgias. Não quero decorações exageradas, nem aquelas flores comuns nestas ocasiões.
Gostaria também que minha roupa fosse branca, do jeito que eu gosto e como tem que ser, um vestidinho bem leve com rendinhas, nada de muitos “frufrus”. No cabelo aquela borboletinha com pedrinhas brilhantes. Uma maquiagem bem suave. Não quero chamar atenção, mesmo sabendo que eu serei o centro das atenções.
Não quero aquele conglomerado de pessoas ao meu redor, que cada um tenha o seu lugar e permaneça lá. Eu gostaria que com certo pudor, tudo fosse bem organizado e premeditado, que seguisse um roteiro, que tivesse um protocolo.
Gostaria que cantassem uma música acompanhada de violino, sem muitas frescuras. Gostaria também que o ministrante fosse objetivo em suas palavras para não cansar os presentes e para que tudo termine o mais rápido possível.
Depois da cerimônia formal, gostaria que tudo seguisse normalmente conforme deve ser. O cortejo deve sair da igreja e se dirigir ao Jardim do Lago sem desviar a rota. Tudo sempre com muita discrição, nada de “exaltações”.
Gostaria que no Jardim do Lago, todos também ocupassem seu lugar e o mestre de cerimônia lesse o meu discurso que já está escrito e guardado no envelope azul na gaveta do escritório. Gostaria que ele lesse tudo até o fim e depois abrisse a oportunidade para algum parente ou amigo discursar, se alguém o quiser fazer, é claro. Tudo sempre sem escândalos.
Ao final gostaria que outra música fosse cantada ao som do violino enquanto meu caixão estiver sendo descido ao túmulo. Joguem flores se quiserem, mas gostaria que não houvesse nehum tipo de manifestação desesperada, nem lamúrias e soluços desconsolados.
Gostaria que em minha lápide estivesse o seguinte epitáfio: “Viveu, e como a todos sucede, morreu.” Nada de dizeres que causem comoção. Se palavras em vida não tiveram efeito para me curar, muito menos em morte me fariam voltar a viver.
E por fim, gostaria de ser lembrada com serenidade, e que este rosto jovem que comigo irá para a sepultura, é que permaneça para sempre guardado na memória dos que ficarem e que alcançarem a desejada e temida velhice. Ah! Quem me dera conhecê-la!
Não são regras, leis, nem ordens. São apenas meus últimos desejos para minha cerimônia fúnebre. Não são obrigações, apenas coisas simples de que eu gostaria que acontecessem naquele dia que será triste para todos nós: o dia do ‘adeus’.
Ternamente,
Zuzi.
(:|:)
.o.menino.e.o.eco.
Do alto da motanha o menino gritou:
_Oláaaaa!!!
E ouviu o Eco responder:
_Lá, lá, lá!!!
Ficou intrigado e perguntou:
_Quem fala comigoooo???
E o Eco não deixou de dizer:
_Migo, migo, migo!!!
E até hoje o menino não consegue saber se o Eco é aMigo ou iniMigo.
(:|:)
.quer.casar.comigo.?.
Quando Alice abriu a caixinha vermelha. Ficou surpresa. A aliança dourado parecia brilhar diante dela.
Alice sorriu para Bruno novamente e disse:
_Quero!
(:|:)
.joaninhas.
Joaninhas são joaninhas.
Joaninhas são pequenininhas.
Joaninhas são quietinhas.
Joaninhas são vermelhinhas.
Joaninhas são sozinhas.
Joaninhas são redondinhas.
Joaninhas são joaninhas.
(:|:)
.primavera.
Quando eu abrir a janela, as nuvens escuras terão passado. A tempestade terá tido seu fim. A noite sombria será dia radiante.
Quando eu abrir a janela, terei vontade de sair para pessear. As roupas de luto darão lugar ao alegre vestido vermelho de renda. E o cabelo desgrenhado ganhará a forma de cachos soltos ao vento.
Quando eu abrir a janela, o vento frio terá cessado. As árvores estarão repletas de flores. Haverá novas cores e novos amores.
Quando eu abrir a jenela, você vai acenar para mim do outro lado da rua e eu devolverei o sorriso. As lágrimas estarão só no passado e eu direi “sim” quando você me convidar para ir à praça.
Sim, abrirei a janela. Mas só quando for PriMaVeRa.
(:|:)
.despedida.
Meu amor,
não pesso perdão. Você já sabia que eu me mataria no dia do meu aniversário. Eu sei que você pensou que estava brincando. Mas eu não estava. Sinto muito.
Tua.
(:|:)
.desvaneios.outra.vez.
Nesta manhã não há muita coisa que realmente importe para mim. Quando aquilo que acreditamos chega ao fim e percebemos que estávamos apoiados em ilusão, não há nada que te convença a comprar outra bicicleta. Nada muda fatos. Então apague a luz. Só os sonhos concedem aquilo qua a vida nos nega.
(:|:)
.para.aquela.martins.de.lima.
Já faz um tempinho. Estava sozinha andando na ruazinha. Bem distraída eu. Esbarrei num toco e caí com o nariz no chão. Ainda bem. Pois foi aí que vi, escondida e perdida atrás da árvore, uma dressi.
Foi a primeira vez que vi uma.
Ninguém sabia me dizer o que era aquela coisinha alaranjada. Era tão pequena. Mas me fez rir de cara.
Fiquei com ela, guardei-a no bolso para não perder. É, na ruazinha que eu andava tinha muitas coisinhas assim: ’surpriendorosas’.
E ainda mais distraída eu me perdi em algumas esquinas. Mas quem nunca se perdeu? Cansei da canseira e sentei de bobeira à beira do caminho. Daí ouvi um estralinho. Puts! Tinha esquecido da dressi dentro do bolso. Bem distraída eu.
Tirei-a de lá e fiquei tão surpresa. Eu não sabia que uma dressi crescia tão rápido assim. Mas aquela dressi alaranjada tinha dado uma boa espichada e eu nem sequer percebi. Dentro do bolso ela não podia ficar. Que graça tem encontrar uma rara dressi alaranjada e escondê-la num lugar qualquer?
E era tão óbvio. Qual é o lugar mais seguro para se guardar uma dressi alaranjada dificílima de se encontrar, que você não quer perder mas também não quer sufocar? Ah! Você não sabe o que é uma dressi alaranjada? Sinto muito! Só quem encontra uma sabe como é!
E eu, bem… Já faz 9 anos que eu tenho uma guardada no meu coração!
(:|:)
.psicose.paranóica.induzida.
PARTE V
(((em construção)))
.virou.salada.
Era uma vez uma cebola redonda e feliz.
Mas ela fazia as pessoas chorarem. Isso não era bom.
Então, um dia, fizeram picadinho dela.
Virou salada.
(:|:)
.antes.de.terminar.o.dia.
Raul ainda estava deitado, de qualquer jeito naquela cama espasoça. Linna estava no banheiro secando o cabelo. Raul se virou para o outro lado, mas o “vummm” do secador acabou com a esperança do “só mais 1 minutinho”. Então ele voltou seu corpo para a porta do banheiro que estava aberta, e ficou ali esparramado a observar sua linda Linna. O cabela dela nunca estivera tão comprimido. Os longos e lisos fios pretos constratavam muito com a pele branca dela. E foi isso que chamou atenção dele 7 anos antes, quando ele esperava a namorada na escada do prédio e Linna desceu com os cabelos soltos recém lavados cheirando a pessego. Foi o suficiente e ele se apaixonou.
Tudo nela o encantava. Raul não conseguia se irritar com ela. Ela era tão doce, tão meiga, tão frágil ao seus olhos. Tudo o que ele queria era protege-la, guarda-la, cuida-la. Linna desligou o secador e começou a fazer uma maquiagem rápida e improvisada. Raul se deliciava com cada movimento dela. As mãos trêmulas tentando passar o lápis no olho, depois mais frenéticas com o blush nas bochechas, e firmes ao passar o batom nos lábios. E pronto! Não precisava demais nada. Ela já era linda demais pra ele.
Uma olhadinha a mais no espelho. Mas algo fez Linna exitar. Raul esticou o pescoço e viu o que ela fazia. Com movimentos leves e circulares Linna acariciava a barriga, enquanto admirava seu reflexo no espelho imaginando quando o barriga começaria a crescer. Raul sorriu, e também divagou nesse pensamento. Imaginoi sua linda Linna ainda mais linda com os cabelos soltos e um barrigão presunçoso. Era só o que faltava para o perfeito se tornar o para sempre perfeito.
Foi então que ele lembrou que precisava se apressar. Num movimento saltou da cama e Linna voltou em si.
_Ande para o banho! Não vamos nos atrasar hoje, não é?
Raul se aproximou segurando os ombros de Linna.
_Hoje não meu bem. Porque hoje tudo tem que ser pefeito.
Linna deu um risinho suave e suspirou pensativa.
_ O que foi?
_ Estou com medo, Raul… É a terceira vez…
_ Hei. Psiu. Pára com isso. Vai dar tudo certo.
_ Eu só tenho medo de me frustrar de novo.
Raul segurou o firme o rosto de Linna com as duas mãos.
_ Não pense nisso. Vai ver ser diferente dessa vez. Eu prometo, tá?
Linna balançou a cabeça positivamente. Raul tocou seus lábios nos dela mansinho e sorriu.
_ Eu te amo.
_ Eu te amo mais, minha linda Linna.
***
Quando ela pegou o envelope, ele parecia mais pesado que qualquer outra coisa no mundo. Apertou contra o peito e suspirou forte. Raul abraçou ela pela cintura e eles sairam da sala em direção ao elevador. Caminharam em silêncio. Haviam muitas palavras soltas no ar, mas nenhum deles queria verbali-las. Era melhor assim. Melhor deixar as palavras para depois. Caso tudo desse errado novamente.
O elevedor chegou no térreo e eles caminharam para saída do prédio. Quem dera que tivessem ficado mais um pouco. Se Linna ficasse com secador ligado só mais um pouquinho, Raul ficaria a observá-la só mais um pouquinho. Então ele se atrasaria um pouquinho no banho, chegariam um pouquinho atrasados no laboratório e não seriam os primeiros a serem atendidos. Então quando saíssem o elevador estaria lotado e não vazio como estava e teriam que esperar só mais um pouquinho. Quando chegassem lá em baixo o pior já teria passado. E então eles não teriam só mais um pouquinho de tempo juntos, mas teriam ainda a vida inteira.
***
O rapazote tinha acabado de assaltar um ônibus e fugia de dois policiais. Um deles atirou e a bala passou de raspão em sua coxa direita. Foi aí que ele ficou furioso e antes de dobrar a esquina virou-se para dar o troco. Atirou no policial. Acertou a linda Linna que saia do edíficio com Raul. A bala foi direto no peito. E ela não imterrompia somente a respiração de Linna que ainda segurava o envolepe,agora ensanguentado, bem apertado ao peito. Mas imterrompia a vida inteira que Raul imaginava que passaria com Linna. Tudo o que eles tinham agora, era um ao outro, um envolope fechado e sujo de sangue, e um tempo juntos, só mais um pouquinho dele.
_ Não pensei que terminaria… assim.
_ Quietinha Linna. Não fala. Você tem que se poupar. A ambulância está chegando. Rapidinho. Seja forte.
_ Raul, como eu te amo… Como eu fui amada por você.
_ Não, Linna… não.
_ Sim… Ai…
_ Quietinha, aqui, no meu colo, assim.
_ Não pensei que terminaria assim.
_ Não vai terminar, amor. Não agora, não assim.
_ Ainda bem que vesti minha roupa preferida.
_ Linna…
_ Ainda bem que você está aqui.
_ Minha linda Linna.
_ Não estou com medo. Raul…
_ Quietinha Linna, por favor.
_Raul… eu não estou com medo de morrer…
_ Não fala isso, Linna. Você vai viver. Eu e você, juntos.
_ …Por isso você não pode ficar com medo de viver.
_ Sim, vamos viver.
_ Viver sem mim.
_ Não, Linna. Não!
_ …
_ Linna? Linna?
_ Abre. Quero saber…
_Não se preocupe agora…
_Raul! Por favor… abre.
Raul pegou o envelopde desajeitadamente, e enquanto segurava Linna nos braços abria o envolope todo manchado. Abriu o viu o resultado. O exame estava bem ali diante dele. Mas nada disso importava mais. Linna estava morrendo em seus braço e ele também estava morrendo dentro de si. Olhou para ela. As lágrimas corriam livremente de seu rosto. Linna também chorava. Agora ela estava mais branca do que nunca. Os cabelos pretos brilhando à luz do sol. Seu rosto pálido estava lindo. A linda Linna mais parecia um anjo agora. Não fosse o sangue manchando sua blusa branca preferida, ele diria que ela era somente uma boneca de porcelana em seu braços.
Ela arregolou os olhos ansiosa. Raul sorriu tristemente e para Linna.
_ Raul…
_ Sim. É sim, meu amor…
_Ah!
_ Parabéns, mamãe!
Linna chorou de alegria. Raul chorava de tristeza. Era tudo o que ela queria ouvir, o que ela precisava ouvir, o que a consolaria naquela hora. Ele a abraçou forte, apertado. Ela ficou mole, o corpo sem vida. Ele a trouxe ainda mais para perto de seu corpo. Soluçava igual a uma criança. A terça-feira ensolarada ficou sem graça e sem vida para Raul. Duas coisas terríveis e inconcebíveis aconteçaram com ele naquela manhã: Linna morrera e, pela primeira e última vez, Raul mentira para ela.
(:|:)
.a.ligação.
Já era hora de receber uma ligação do Carlos. Fazia uma semana que nós tínhamos almoçado juntos e nada. Então finalmente ele ligou. Mas sabe o que ele me disse? Você não vai acreditar! Porque eu também quase não acreditei. Ele ligou para perguntar se eu tinha o número da Ge. Acredita nisso? Ele quer sair com ela! Eu devia ter desconfiado… Ele perguntou tanto dela. Mas eu nem me liguei na hora. Ai, que raiva! E sabe o pior? Ele disse que se der tudo certo ele vai me agradecer pelo resto da vida, e eu serei a madrinha de casamento deles. Que rídiculo! Pára de rir porque não foi com você não, tá?!
(:|:)
.confissões.
Bip!
_Hei, estou aqui.
Bip!
_Por que demorou?
Bip!
_Esse trânsito terrível…
Bip!
Mas estou aqui agora
Bip!
Isto é o mais importante.
Bip!
_Sim. Sim…é sim.
Bip!
Agora eu já posso ir…
Bip!
_Ir aonde hein?!
Bip!
_Ir em paz… morrer em paz.
Bip!
_Pára com isso bobinho.
Bip!
Você não vai morrer ainda não.
Bip!
_Mas antes… você…
Bip!
…Você precisa saber.
Bip!
_Pai, do que você tá falando?
Bip!
_Dói muito aqui na alma…
Bip!
_É melhor dormir um pouco agora.
Bip!
_Mas eu me arrependo tanto… tanto…
Bip!
_Do que está falando, pai?
Bip!
_Está na hora… não posso mais.
Bip!
Já não posso mais…
Bip!
…Suportar isso tudo.
Bip!
_Sss. É melhor ficar calado.
Bip!
_Não! Não posso mais.
Bip!
A verdade tem que…
Bip!
…Tem que ser dita.
Bip!
_Ssss. Por favor, papai…
Bip!
…descanse agora, sim?!
Bip!
_Não! Não há tempo. Não há.
Bip!
Tenho que falar agora.
Bip!
_Pai, por favor, se acalme.
Bip!
Descanse está bem?
Bip!
_Não! Já chegou minha hora.
Bip!
_Pare com isso, pai. Descanse agora.
Bip!
_Filha, ah! Filha minha!
Bip!
Perdão, minha filhinha!
Bip!
_Pai, não tem nada disso não.
Bip!
Não há nada pra perdoar, viu?
Bip!
Tá tudo bem, eu te amo, pai.
Bip!
_Não, filha! Não! A verdade…
Bip!
… A verdade, filha. Perdão, perdão…
Bip!
_Sim, eu perdoô o que for,pai.
Bip!
Agora se acalme, por favor!
Bip!
O senhor está alterado. Descanse.
Bip!
_Fui eu, filha… fui eu…
Bip!
_Pai, por favor! Relaxe!
Bip!
_…Eu…
Bip!
_Pai?
Bip!
_Eu…
Bip!
…matei…
Bip!
_Pai?
Bip!
_ …Sua…
Bip!
_Que?
Bip!
_…Mãe!
Bip!
_Que?!
Bip!
Bip!
Bip!
_Pai?
Bip!
Bip!
Bip!
Bip!
Bip!
Bip!
Bip!
Bip!
Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiip!
(:|:)
.tentativas.
Oi Viny! Tô escrevendo só pra te dizer que eu te amo!
Oi, tudo bem, Viny? Não sei se tu já notou, mas eu…eu…
Bom dia! Hoje eu acordei e percebi que não posso deixar passar mais este dia sem que tu saibas o que eu sinto…
Viny, tu sabe que eu gosto de ti?
Oi! Vou direto ao assunto tá? Olha já faz um tempo que eu tô sentindo algo diferente por ti… Sabe? Algo além da amizade… muito além disso na verdade. Pois é… tu nunca reparou né? Foi o que eu imaginei…
Hei Viny! Eu pensei se tu não gostaria de tomar um café comigo hoje. Lá pelas 4… ou melhor.. pelas 16:00 horas…
Oi! Como você tá? Eu tô querendo muito falar com você. Será que podemos marcar uma hora? Se eu não estiver me deixa um bilhete também…. ou me liga… 5554-9682…
Viny, estou apaixonada por ti… parece louco… mas…
Olá, Viny! Estou buscando várias formas pra dizer uma única verdade, a única verdade que sempre houve entre nós. EU TE AMO! Será que tu nunca vai perceber isto? Já faz tempo que tento te falar… Mas parece que tu não quer perceber, parece que tu prefere não saber o que eu sinto. Mas saber ou fingir não saber, não vai mudar o que já sinto há tanto tempo. Sei que tu não me ama. Sou apenas tua amiga. Só mais uma entre tantas. Mas eu te amo. E pra mim isto basta. Basta por nós dois. Não vem me dizer que não sentes o mesmo, porque isto eu já sei. Então me poupe de sofrer mais do que já sofro simplesmente por te amar… Ana Carolina.
Oi, Viny! Só tô deixando este bilhete pra te avisar que a planilha de julho já está pronta. Pega comigo depois do almoço. Bom dia! Ana.
(:|:)
.ser.adulto.
Sim! O menino não queria crescer. Ele não era Peter-Pan, nem pretendia ser. Ele só queria continuar sendo um menino. Pra sempre e por toda vida.
Mas, ele cresceu. Porque a vida é assim. E agora ele trabalha, paga as contas, vive estressado. Já faz muito tempo que ele não sabe o que é ser criança. Na verdade ele nem lembra que também já foi uma.
(:|:)
.só.às.vezes.
Só às vezes te vejo. Te percebo.
Só às vezes te ouço. Te entendo.
Só às vezes sinto tua falta. Te quero.
Só às vezes tenho certeza de te amar. Então, me afasto.
(:|:)
.amanhã.de.manhã.
Amanhã de manhã quando eu acordar, meu corpo não será tão ligeiro, tão formoso, tão firme. Minha pele estará enrugada, minhas mãos trêmulas, meus movimentos vagorosos.
Amanhã de manhã quando eu acordar, minha voz não será tão macia, meus ouvidos não tão eficientes, e meus olhos escurecidos. Meu cabelo estará ralo e esbranquiçado, meus pés cansados, minhas memórias confusas.
Amanhã de manhã quando eu acordar, meus dentes não serão tão fortes, meus ossos estarão mais fracos e minha respiração mais ofegante. Voltarei a depender de cuidados, atenção e dedicação. Amanhã serei novamente tão frágil como fui ontem.
Amanhã de manhã quando eu acordar, saberei o resultado de minhas escolhas, chorarei as perdas, celebrarei as conquistas. Muitos dos meus estarão como eu, outros já terão ido, outros não se lembrarão de mim.
Amanhã de manhã quando eu acordar, saberei o nome daquele para quem eu direi “sim”, saberia o nome dos nossos filhos, e dos filhos dos filhos dos filhos dos nossos filhos. Eles não estarão mais nos meus planos simplesmente, mas já terão meu nome, meu sangue, meu amor. Então eles sentarão para ouvir minhas histórias e saberão que fazem parte delas.
Amanhã de manhã quando eu acordar, a última moda não fará diferença, o carro do ano também não, e a conta bancária talvez já esteja encerrada. Meus pertences não me pertencerão mais, minha herença terá sido partilhada, e ainda estarei distribuindo as últimas coisas que estarão na gaveta.
Amanhã de manhã quando eu acordar, meus pais já terão partido há muito tempo, talvez até meus irmãos. A saudade será insuportável mas a longa espera para vê-los novamente estará se findando. Então darei uma boa risada.
Amanhã de manhã quando eu acordar, saberei se as quatro árvores que plantei no quintal terão crescido e florescido. Saberei como as futuras gerações terão lidado com o aquecimento global, a fome, a violência e o lixo, e saberei se a água ainda é um recurso natural disponível.
Amanhã de manhã quando eu acordar, vou descobrir o que aconteceu com meus sonhos, projetos, músicas e poemas. Terei fotos dos lugares que visitei, das casas que morei e das flores que colhi. Saberei quão longe foram minhas aventuras. Muitas de minhas perguntas terão encontrado suas respostas, e muitas outras terão se perdido sem saber.
Amanhã de manhã quando eu acordar, não serei mais tão jovem. Estarei nos tenros dias de minha velhice. E minha vida terá sido tão rápida como o sussurro da noite que separa o hoje do amanhã. Não haverá como voltar atrás nem como viver novamente. Pois o dia já terá amanhecido.
Amanhã de manhã quando eu acordar, poderei olhar pra trás e ver que aproveitei cada dia de minha vida e que faria tudo do mesmo jeito. Meu coração se encherá de júbilo e meus lábios de gratidão. Chorarei o fim de minha vida terrena, mas saberei que ela terá valido a pena. E terá sido um bom fruto dAquele penoso trabalho.
Então, depois de amanhã quando o dia amanhecer, levarão flores no meu túmulo e chorarão mais uma vez. Porque eles ainda estarão aqui. Eu, contudo, estarei naquele lugar onde todas as lágrimas serão enchugadas.
(:|:)
.na.calada.da.noite.
Quando a menina desligou a televisão todos já estavam dormindo. Ela perambulou pela casa escura ainda insone. Desceu as escadas e sentiu um friozinho pelo corpo. Lá fora ventava muito e tudo parecia mais silencioso que o normal.
Foi até a cozinha e abriu a geladeira. Nada parecia lhe agradar. Foi então que ouviu um ruído vindo da sala. Andou devagar e silenciosamente pela porta lateral.
_Tem alguém aí? … Pai? … Lucy? … Erik? … Quem tá aí?
Ninguém respondeu. Achou que devia ser coisa de sua cabeça. Mas quando virou-se para voltar à cozinha viu um vulto passando pelo outro lado da escada indo direto para a porta do porão.
_Hei! Eu te vi! Pode aparecer! Quem é você? O que você quer aqui?
Mesmo com medo ela foi cautalesomente em direçao à escada. Tudo parecia arrepiante e meio fora da realidade. Ela pensou estar sonhando. Ficou meio confusa. Chegou em frente à porta do porão. Estava entreaberta. O que fazer? Deveria entrar? Quem estaria lá? Seria seguro ou perigoso? Deveria chamar alguém ou entrar ali sozinha?
Abriu a porta devagar. A luz do porão não ascendeu. Achou estranho. Desceu as escadas com cuidado. Sentiu que havia mais alguém ali. O ar estava diferente. Foi aí que se arrependeu do que estava fazendo. Mas já era tarde demais. A porta se fechou e ela sentiu mãos quentes a segurá-la. Tentou gritar mas não conseguiu.
Depois disto, 5 anos se passaram e ninguém nunca mais a viu. Como eu sei disso? Bem, se eu te contasse você também desapareceria na calada da noite.
(:|:)
.04.de.julho.de.2001.
Ele era um rapaz legal. Na verdade o único amigo que fizera durante seis meses.
As meninas não se aproximavam de mim. Nunca havia conversado com nenhuma garota do meu colégio. Não que as oportunidades nunca surgissem, porque vez ou outra apareciam. Mas as “conversas” consistiam em cinco ou seis palavras de ambas as partes. Sempre que elas descobriam que ele era meu amigo inventavam uma desculpa e saiam de fininho.
Mas isso não importava pra mim. Ele era um rapaz legal. Era meu melhor amigo. Meu único amigo. Às vezes quando caminhávamos juntos pela ruas ruas da cidade, as pessoas nos olhavam de atravessado e cuchichavam coisas sobre nós. Isso me irritava. Ele sempre percebia e perguntava:
_ Você quer ir pra casa?
E eu sempre respondia:
_ Não.
Depois disso havia sempre silêncio entre nós. Então quando eu não aguentava mais de tanta raiva ele perguntava:
_ Você não se importa em ser minha amiga?
_ Não – Eu dizia.
Entretanto em uma dessas caminhadas quando ele fez essa pergunta e eu como de costume dei minha resposta, ele me disse algo inesperado:
_ Você é a única amiga que eu já tive em toda minha vida!
Me emocionei. Comcerteza eu teria dito a mesma coisa se não fosse uma lágrima que quase escapou dos meus olhos. Fiquei sem saber o que dizer. Naquele momento percebi que ele era muito mais que um amigo, era um anjo. Era alguém especial que Deus havia colocado em minha vida.
Ele sabia da minha vida inteira e me conhecia perfeitamente. Eu, no entanto, mal sabia seu sobrenome. A vida dele era um mistério para mim.
Quando tive que ir embora me entristeci muito. Vi uma tristeza profunda em seus olhos quando lhe contei. Os risos e alegrias que até então ele sempre deixara transparecer, em seu rosto não mais se via. Ele com os olhos cheios de lágrimas olhou para mim e disse:
_ Eu amo você!
Beijou minha mão e depois levantou-se. Deu alguns passos, olhou para trás e disse adeus. Nunca mais o vi. Fui embora e nunca mais o vi. Ele sumiu de repente. Talvez fosse mesmo um adeus eterno. Semvolta. Choro sua lembrança! Choro esse amor perdido. Mas sei que se ainda estiver vivo, voltará para mim!
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.de.volta.aos.40.
Sempre querendo voltar. De volta aos 40 kilos. De volta aos 40 dias de férias. De volta aos 40% de aumento. De volta aos 40 minutos de intervalo. De volta aos 40 anos de idade. De volta às 40 opções de compra. De volta aos 40 contos deste blog. Sempre de volta aos 40.
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.desvaneios.
Sei que a vida é cheia de voltas… A gente se perdeu em uma delas. Desconheço as razões… Sentimentos profundos. Mágoas também. Tudo se constrói e desconstrói. Até o ideal de um amor platônico. Por onde você anda? Haveria um lugar para nossos caminhos se cruzarem novamente? Tanto procurei seu olhar. Agora nada procuro, porque eu me perdi. Tanto quis te ver novamente. Boas as intenções. Mas de nada adianta agora. Estou cega. E isto é mais uma volta que a vida deu.
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.quando.eu.nasci.
Quando me aproximei entendi o que estava acontecendo. Na praça pública, cercada pela multidão apressada, a mulher gritava sentindo as contrações. Não haveria tempo pra mais nada. Me agachei para ajudá-la e ela entrou em trabalho de parto ali mesmo.
Ela estava assustada e eu mais ainda. Nunca fizera um parto naquelas condições. Tentei me acalmar e passar segurança para ela. Eu sabia o que devia fazer. Sabia como fazer. Mas estava atônito mesmo assim. Ela gritou novamente, dessa vez com mais intensidade. Havia terror em seus olhos.
Outra mulher se agachou perto de mim. Era enfermeira e iria ajudar. Fiquei mais aliviado. Tentei sorrir mas foi então que senti um mal estar. Minha cabeça começou a girar. Procurei me concentrar na mulher que gritava ainda mais. Contudo a dor na cabeça estava ficando cada vez mais aguda.
A mulher gritou em desespero. Gritei também. Eu estava morrendo. E no meu caso, ninguém poderia me socorrer naquele momento. A última coisa que vi antes de desmaiar foi a mulher gemendo e desmaiando de dor.
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.o.fato.e.o.assunto.
É claro que ninguém queria falar sobre o fato. Têm coisas que devem ficar esquecidas pra sempre, nas gavetas obscuras dos corredores escondidos da mente daqueles que sabem a verdade. Existem fatos que não devem ser mencionados quando uma família feliz está sentada à mesa. Tem calamidades que precisam ficar no passado e nunca mais voltar para o presente.
Ninguém queria falar sobre o fato. Mas, o assunto estava entre todos. Dormindo com eles. Comendo com eles. Vivendo com eles. O assunto tinha cor, nome e idade. O assunto olhava nos olhos de cada um pedindo justiça. O assunto não falava sobre o fato. Na verdade , o assunto não falava sobre nada. Porque até tocarem nele, ele nem era um assunto. Mas, depois do fato, ele se tornara o assunto. E a presença dele incomodava. O fato dele ter se tornado o assunto por causa do fato, era incoveniente.
Sim. Todos disfarçavam. Mudavam de assunto, principalmente quando o assunto chegava. Jamais falavam sobre o fato com o assunto. Queriam tocar a vida. Queriam pensar em outras coisas e também em outros fatos, mesmo sabendo que o assunto nunca mudaria. Mas, preferiam assim. O que a sociedade iria dizer? Preferiam abafar o fato, para não serem assunto no jornal da cidade. Estavam dispostos a chantagear e ameaçar o assunto caso ele falasse sobre o fato. Mas o assunto estava traumatizado demais para falar sobre qualquer coisa, e até mesmo para entender que por causa do fato ele se tornara o assunto.
Claro que ninguém queria que o fato tivesse acontecido. Mas o fato já era fato. Era um fato muito triste. Mas se o fato viesse à tona, seria mais que triste. Seria um vexame, uma vergonha, um escândelo. Silenciar o assunto, mesmo sem resolver o fato, era mais conveniente para aqueles que detinham o poder.
E também, todos preferiam acreditar que, com o tempo, o assunto esqueceria do fato. E assim, todos seguiriam sorridentes, sem nunca mais tocar no fato, mesmo convivendo com aquele que era o assunto. Pois para eles, fatos como aquele não deveriam ser mencionados para não comprometer a reputação daquele que sustentava o assunto, e que o assunto chamava de pai.
Plínio Moraes de Paula, 6 anos de idade: o assunto. Pedofilia: o fato.
É mais cômodo se calar. E é imprescíndivel se calar quando o assunto está dentro da sua casa. Afinal, ninguém quer ir aos domingos visitar o papai na prisão. Isso seria desgastante, vergonhoso e traria desunião e ruína para uma família tão unida e politicamente correta. Ademais, um dia, Plínio, cresceria, se tornaria um homem, e iria entender que proteger o pai teria sido necessário para a carreira política dele. Sim. Plínio entenderia quem mesmo sendo o assunto, esquecer o fato, teria sido a melhor escolha da toda a família.
E a justiça? Ah, deixem que ela durma confortavelmente dentro de uma das gavetas obscuras dos corredores escondidos da mente daqueles que conhecem a verdade.
E não se fala mais neste assunto!
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.pés.suspensos.
_Menina, desce já daí!
Li desceu da árvore desajeitadamente e correu para dentro de casa. Entrou pela porta da cozinha e assentou-se à mesa. Leonor tirou o bolo de fubá do forno colocando-o sobre a mesa e olhou para ela.
_Pensa que não sei que você estava trepada naquela árvore?! Não disfarça menina!
Li olhou para a mãe com um semblante de culpa. Enrrugou um pouco a testa esperando a bronca que ouviria. A mãe, contudo, suavizou a expressão e as duas caíram na gargalhada. Leonor puxou uma cadeira e sentou próximo a filha.
_Ai Li! Só você mesmo para ter essas idéias. É perigoso você se pendurar lá no alto. Você tem somente 8 anos. E aquela árvore é alta demais. Não sei o que tanto você faz lá em cima.
Leonor cortou um pedaço do bolo que ainda fumegava. Colocou o pedaço em um pires e entregou para Li. Olhou nos oslhos da filha mais uma vez e continuou seu discurso de mãe protetora:
_Vamos fazer o seguinte. Você não se pendura mais no alto da árvore e eu lhe dou o brinquedo que você quiser. Que tal?
Li balançou a cabeça afirmativamente. Com um sorriso suave e um olhar peralta a menina disse:
_Eu quero um balanço. Um balanço bem no alto da árvore.
_Sua espertinha!
Mas, não teve jeito. Tarso, o pai da menina, providenciou o balanço. Ele ficou realmente alto. Li precisava ficar na ponta dos pés para conseguir subir nele. E pediu ao pai que conforme ela fosse crescende ele fosse subindo o balanço para que ela sempre tivesse que ficar na ponta dos pés para subir nele.
Coisa de menina. Coisa de criança. Talvez seu Tarso e dona Leonor nunca entenderiam a inteção da filha. Mas Li era assim. Sonhadora. Tudo o que ela queria era ficar com os pés suspensos para balança-los do alto. Pois assim tinha a impressão de estar mais perto do céu do que da terra. Tinha a sensação de estar voando.
Ela voaria se pudesse. Mas não podia. Então queria ficar sempre no lugar mais alto, com os pés suspensos, com os cabelos dançando ao vento, e com os braços abertos.
E quando ela cresceu muita coisa mudou. Ela até se mudou da fazendo onde crescera. Mas nunca deixou de ser sonhadora. E de pensar que, um dia talvez, ela conseguiria voar. Então a primeira coisa que fazia quando ia a fazenda, era correr até o balanço. Ficar na ponta dos pés para subir nele era ainda uma delílica. Sorrindo, ela deixava o vento beijar sua face e afagar seus cabelos, abria os braços, e balançava os pés, que mesmo depois de adulta, ainda ficavam suspensos no vai e vem do balanço.
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