JoAnInHaS falam no silêncioOoOo (:|:)

…e o que elas escrevem?!

.vestido.verde.

_Mãe, eu quero este aqui tá?

_Esse com o babadinho na gola?

_Aham! Mas ó… tá vendo? Quero nesse tom de verde tá?

_Tá bem. Pode deixar, Pietra. Eu já entendi minha filha.

_Ai mãezinha! Obrigada!

Pietra saiu pela porta do quartinho de costura da mãe, com um sorriso cortando o rosto. Que orgulho ela dava a sua mãe. Aquele era o ano da “Grande Crise Mundial”, e com muito esforço, em 12 dias, Pietra se formaria. Ela seria veterinária. Com certeza aquele seria o vestido mais bonito que dona Garibaldi faria em toda sua vida. Portanto Pietra precisava de um sapato digno de tal modelito. A tarde seria longa andando pelas ruas para encontrar o tal sapato, mas ela persisitia toda vez que lembrava que sua mãe estava em casa se empenhando em seu vestido.

***

_Alô?

_Garibaldi Rolandini, por favor?

_É ela mesma.

_A senhora conhece Pietra Rolandini Vidal?

_Sim. é minha filha.

_Eu sou Vitória Dorácio, enfermeira chefe do Hospital Regional Alcântara Vila Grande.

_Ai…o que aconteceu?

_Peço que a senhora fique calma. Sua filha foi atropelada e encaminhada para nosso pronto socorro. Então se a senhora puder venha imediatamente.

_Mas como ela está? Ela está bem não é?

_A situação dela é estável. Mas é melhor a senhora vir e pessoalmente vou explicar melhor tudo o que aconteceu.

_Está bem, está bem. Já estou indo para aí. 

Quando dona Garibaldi chegou no Hospital e conversou pessoalmente com a enfermeira Vitória, entedeu que “estável” foi uma forma suave para dizer que sua filha estava em coma e estava na UTI. O caso era muito grave. Pietra sofrera traumatismo crâniano, juntamente com uma lesão na cabeça que causou um corte da testa, até a nuca pelo lado direito da cabeça. Mesmo se saísse do coma, nunca mais poderia andar. Sua coluna quebrara em 7 lugares diferentes, um caso irreversível. Sem contar que as duas pernas estavam fraturadas, e o pé esquerdo foi dilacerado de tal forma, que seria necessário amputá-lo imediatamente.

Agora a história não era mais de uma moça feliz prestes a realizar um sonho, mas sim, de uma mãe angustiada prestes a perder a filha, a única filha. Tudo o que ela tinha. Sua única família. Garibaldi repassou os últimos instantes daquela tarde em que esteve com sua filha. Pietra toda sorrisos escolhendo seu vestido de formatura. O que fazer agora? O que esperar disso tudo? Sentada na sala de espera, Garibaldi chorou em silêncio.

***

Quatro anos se passara desde a “Grande Crise Mundial”, mas  o vestido verde cobreado com o babadinho na gola ainda estava perfeito. Clarice olhou e de cara gostou dele. Entrou na lojinha da esquina. Era pequena e meio escura. Passava um ar triste, mas o vestido na vitrine era perfeito. O que ela vinha procurando há semanas.

_Oi. Eu queria provar o vestido da vitrine.

_Ah, sinto muito aquele não está a venda. É só uma amostra para enfeitar a vitrine.

_Ah! Que pena. Eu gostei tanto dele. Será que não tem jeito da senhora vender ele pra mim?

_Ele é da minha filha. Ela vai ser veterinária. Daqui há 12 dias.

_Poxa que pena pra mim e que ótimo pra ela. É um vestido belíssimo.

_Não foi fácil pra ela sabe? Conseguir se formar no ano da Grande Crise Mundial a faz digna do melhor vestido que eu poderia fazer.

_É, pode ser, mas… não estamos no ano da Grande Crise Mundial. Isso foi há 4 anos, minha senhora.

_Não! Eu digo que não! Estamos no ano da Grande Crise Mundial, sim! Minha filha foi comprar um sapato lindo para usar com aquele vestido, porque daqui há 12 dias ela será uma veterinária!!!

_A senhora deve estar louca!

_Saia daqui! Você não entende nada de crises globais! Não entende nada de sapatos, vestidos, formaturas e filhos! Você não sabe de nada!!! Sua insolente!!! Saia daqui!!!

_Sua maluca!

Clarice saiu da loja apressada e assutada. Só queria comprar um vestido afinal. Não conseguia entender a atitude daquela mulher, e depois de passado o nervosismo e a raiva só pode sentir pena da pobre coitada.

***

O vestido verde continuou na vitrine por muito tempo. Sempre à mostra para alguém querer comprá-lo sem conseguir, é claro. Pois dona Garibaldi, mesmo depois de 26 anos da morte de Pietra, explicava que o vestido era de sua filha que iria se formar dali há 12 dias.

(:|:)

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16 de maio de 2009 - Posted by | Família, Obsessivos, Psicóticos | , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

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