JoAnInHaS falam no silêncioOoOo (:|:)

…e o que elas escrevem?!

.o.neto.do.rio.

_E, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro, o rio…

Neste último sussurro o homem velho e magro da vida disse adeus. Nem era pra ser antes, nem era pra ser depois. Seja quando fosse, ali estaria seu sobrinho a segurar forte sua mão. Fazia meses que o rapazote mal dormia, comia ou ia para algum outro lugar. Ficava ali rodeando a cama, como que velando o moribundo. No começo a mãe lhe falava:

_Vai-te cuida da vida menino. Deixa teu tio morrer em paz!

O menino sem nem mexer o pescoço respondia:

_Ele só vai em paz se eu fica aqui em paz com ele.

Depois de dias ela desistiu. Melhor assim, ao menos ela ia ficar sem peso de culpa na cabeça por não estar ela mesma, conforme obrigação, ao lado do leito de morte de seu próprio irmão. Mas, coitada. Nem que em si ela quisesse fazer tal coisa haveria de conseguir. Olhar para o irmão só a fazia lembrar do próprio pai. E assim como ele definhava em pele, osso e cabeleira, assim ela lembrava da ultima imagem do pai; parecendo um fantasma dentro de uma canoa a subir e descer rio. Lembrança triste. Lástima perdida. Do pai nunca mais soubera, mesmo que se quisesse saber não se tinha a quem perguntar.

O ultimo que o vira no ano anterior era o homem que morto estava no quarto do filho. E algo aconteceu, que ninguém soubera o que, naquele ultimo encontro na beira do rio; e algo de nada bom era, porque o irmão foi-se embora de perto do rio e chegou na casa da irmã como quem vê aparição. E trazia um assombro no olhar e uma tristeza no coração, como que quem se decepciona consigo de si mesmo; a irmã perguntava, mas o irmão só dizia:

_Sou covarde, sou covarde, sou culpa, não sou curva, não sou rio. Não seu teu pai, sou teu irmão.

Sem nem entender o que dizia, às vezes ela insistia pra saber o que se aconteceu; mas os meses se passaram e ele só respondia assim até que um dia nem nada dizia. Depois também desistiu de comer e dormir, pelo menos ninguém o via ir-se deitar e quando o dia clareava já ele estava de pé. A culpa que ele dizia, pois por dentro certamente o consumia e de vez e outra vez ele balbuciava alguma coisa sobre o rio.

Mas agora cá estava o pobre homem morria tendo o sobrinho como testemunha de que seu coração morreu por causa do rio; de vontade de estar no rio ou de culpa por não estar não se podia assim muito bem se querer saber, porque morto ele já estava; mas que morreu pensando no rio isso se pode ouvir.

O sobrinho se doeu pelo tio; ele sabia da historia do avô que mandara fazer uma canoa e entrara nela rio adentro pra nunca mais sair, sabia que o tio ficara lá morando a margem do rio meio que a tentar cuidar do próprio pai. Mas o que ele não sabia ficou a saber quando meses antes o tio aparecera com aquela cara de estarrecido para vir morrer perto de alguma família e ele passou a escutar, as raras ou poucas, palavras que o tio dizia. Para ele, às escondidas, o tio contava as historias do avô e as historias dele mesmo, que tanto se misturavam que o sobrinho já não sabia o que era por certo lenda ou verdade, o que era acontecido e o que era apenas vontade de ter sido. Mas nessas e outras conversas, que eram bem em lá de vez em quando, o rapazote soube o que não sabia; pois a mãe pouco falava do causo, a avó quando viva só falava da falta que sentia do filho, viúva já a tempo bem antes se dizia. Por conta disso quando ouviu do próprio tio as historias do velho rio e do lendário avô ele mesmo ficou a saber aquilo que antes não sabia, ele era o neto do rio.

Depois de disso descobrir entendeu o que tanto lhe faltava na vida, e que mesmo que tentasse saber não conseguia por si só entender, mas finalmente esclareceu-se a mente do menino e como a noite que vira dia ele se fez saber que era o rio que lhe faltava.

Passou os dias do luto do tio, ele já se tinha decidido por si só; abraçou forte a mãe por conta que o pai nem em casa estava, disso dele não fazia falta porque devia estar a beber em algum lugar, por isso foi só dela que se despediu-se e disse que ia pro rio, e ela sem entender pensou que ele havia inventado de ir pescar com algum amigo pra distrair a tristeza da falta do falecido tio.

_Nem nada você tem. Nem canoa pra ir no rio.

_Canoa tenho sim. Meu avô deixou pra mim, nem pergunte como sei porque também não sei, mas sei que ela ta lá me esperando eu chegar.

A mulher passou a se dar conta do que havia de acontecer; só falou sem nem lembrar de onde tinha ouvido, e assim fez a historia se repetir:

_Ocê vai, ocê fique, você não volte.

E o rapazote só retrucou:

__E, eu, rio abaixo, rio a fora, rio adentro — o rio…

Devagar como o noivo que vai encontrar feliz a noiva no altar do matrimonio ele foi indo pela estradinha, a mãe se colocou aos prantos e ainda que vagaroso ia o filho e podia ouvi-la muito bem ela ainda tentou uma ultima súplica, coisa que faz mãe devota ao lar:

_Ocê não é rio menino!

Nem longe, nem perto ele estava, mas bem pode ouvir a mãe e deu-se conta que bem podia responder, parou de mansinho olhou pra mulher inconformada, mas seu coração não se doeu, só sentiu a coragem de ir e a alegria de responder:

_Nao sou rio. Do rio só neto sou.

E foi.

(:|:)

22 de julho de 2010 Posted by | Família, Fantasia | , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

.poema.de.despedida.

Mui em breve, logo, logo,

nessa doce e pura água

Com alegria eu afogo

essa errante e triste mágoa.

 

Que aperta o coração

e não me deixa viver,

Me enche de ilusão

e  me faz perecer!

 

Num mastro, com um nó,

uma corda eu coloco.

Sem saber bem porquê

aos poucos me sufoco.

 

Louco e impensante,

de tanto beber eu giro.

Depois vou para rua,

e de baixo de um burro me atiro.

 

“Agora vou morrer,

pois não tenho mais fé!”

Então tiro meu sapato

e cheiro meu chulé.

 

Me afogo e tento

me sufocar.

E depois de tudo isso

não consigo me matar!

 

E já sem esperança,

do mundo me despeço.

Mas não chores por mim, querida,

pois amanhã recomeço!

(:|:)

10 de fevereiro de 2010 Posted by | Obsessivos, Psicóticos | , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário